por Marcelo Nakagawa
Se Quincas Borba, personagem de Machado de Assis, fosse um consultor de negócio, sua teoria sobre as batatas seria dita mais ou menos assim: duas empresas competiam para dominar o mercado específico de batatas.
Não poderiam dividir igualmente o mercado porque a margem não seria suficiente para mantê-las lucrativas. Ao vencedor, as batatas!
Mas este caso foi citado no final do século XIX. Mais de 100 anos depois, não há somente duas empresas competindo e o mercado foi além dos sítios de batatas. Que tal pensar nos sítios de compras coletivas? Há quantos em operação só no Brasil? Quer montar um só seu? É batata! - diria um tiozão que leu, de fato, Quincas Borba.
Diante da facilidade da entrada de novos concorrentes em mercados nascentes, não basta ser apenas inovador. Empresas realmente inovadoras como a Apple, Google ou Sony não contam apenas com engenheiros e designers talentosos, mas com um exército de advogados em propriedade intelectual pagos para exterminar HiPhone, Goojje e Scny dos seus novos campos de batatas.
Mas a preocupação com a propriedade intelectual é ainda mais crucial para empreendedores inovadores de primeira viagem. Não existe nada mais decepcionante para um empreendedor do que ver sua criação sorrateiramente copiada.
Então que tal comprar uma sandália tipo Melissa? Quando os irmão Pedro e Alexandre Grendene estavam de férias na França no final da década de 1970, notaram que os pescadores franceses utilizavam um calçado plástico. Adaptaram a fábrica de injeção plástica que a família tinha no Rio Grande do Sul, que produzia telas de plástico para garrafões de vinho e lançaram a Melissa, marca de sandálias de plástico voltado para o público feminino.
Só não tinham idéia de como os modelos da marca fariam tanto sucesso no Brasil e no mundo, tornando-se até categoria de produto.
Para combater os concorrentes "tipo Melissa" a Grendene é uma das empresas brasileiras que mais tem patentes e depósitos nos Estados Unidos, ao lado de Petrobras, Vale, Embraco e Unicamp.
Além de patentes, empreendedores também precisam conhecer mais sobre marcas. E poucos sabem tanto quanto Thai Nghia. Ele chegou ao Brasil em 1979, fugindo do regime comunista do Vietnã, sem nenhum dinheiro e sem falar nada do nosso idioma.
Mesmo com menos recursos do que qualquer um de nós, montou uma empresa que produzia calçados a partir de pneus e bolsas com lona reciclada. No auge do seu sucesso, perdeu o direito de utilizar sua marca porque não a tinha registrado adequadamente. Teve que reconstruir uma nova, a Góoc.
E ainda tem o tal de conjunto-imagem mais conhecido como trade dress. Isto ainda é bastante polêmico no Brasil, mas empreendedores como Eduardo Ourivio e Mário Chady, do Spoleto, têm sabido utilizá-lo para evitar que outros espertinhos copiem o jeito personalizado de criação de receitas da rede. E voltando às batatas, cabe ao empreendedor proteger tudo o que for possível do seu negócio. A empresa fundada por William Harley e Arthur Davidson briga até hoje para registrar o som produzido pelas suas motocicletas.
O som é algo parecido com potato, potato, potato falado rápida e repetidamente. Mas nada disso vai impedir que os espertalhões continuem a agir. Cabe ao seu advogado ser bom de mira e acertar a batata quente na concorrência desleal.
Marcelo Nakagawa é professor e consultor de empreendedorismo e inovação
Fonte: http://www.brasileconomico.com.br/noticias/potato-potato-potato_106782.html
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